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Lacan: Mudanças na Direção do Tratamento — O Real como Norte

Lacan: Mudanças na Direção do Tratamento — O Real como Norte

1. Introdução: A Evolução da Clínica Lacaniana

O ensino de Jacques Lacan não é um bloco monolítico, mas uma elaboração progressiva que pode ser percebida como uma “pulsação” entre a temática do sujeito e a do significante. Inicialmente, em textos como o Relatório de Roma de 1953, Lacan estabeleceu a primazia do Simbólico, definindo o inconsciente como “estruturado como uma linguagem”. Nessa fase, o objetivo da análise era o advento de uma “fala plena” que permitisse ao sujeito reintegrar sua história e o sentido de seus sintomas.

Contudo, ao longo das décadas, Lacan percebeu que a decifração infinita do sentido encontrava um limite: o “rochedo da castração” apontado por Freud. A partir daí, sua investigação se desloca para o que resta após a simbolização, o objeto a e a dimensão do gozo. A ética da psicanálise deixa de ser apenas uma busca pela verdade histórica e passa a ser uma orientação do sujeito em relação ao Real. Como afirma Lacan, a questão ética articula-se por meio de um referenciamento do homem em relação ao Real, que é, em última instância, o impossível de simbolizar.

2. A Direção do Tratamento: Ética e Orientação

Na psicanálise, a “direção do tratamento” não se confunde com a direção do paciente. O analista é aquele que dirige o processo analítico, mas deve abster-se de ser um guia moral ou de dar conselhos sobre a vida do sujeito.

O Analista e o Sujeito Suposto Saber

A direção do tratamento depende fundamentalmente da função do “sujeito suposto saber”. Lacan define que, “desde que haja em algum lugar o sujeito suposto saber, há transferência”. O analista ocupa esse lugar de saber para que o analisando possa projetar sua busca de verdade, mas, ao final da análise, essa suposição deve cair, revelando que o Outro não detém a resposta última sobre o ser do sujeito.

O Desejo do Analista como Bússola

Diferente da medicina ou da psicologia, onde o profissional se guia por normas de saúde ou adaptação, o analista se orienta pelo “desejo do analista”. Este desejo não é um desejo puro, mas um desejo de obter a “diferença absoluta”, permitindo que o sujeito se confronte com seu significante primordial. A posição do analista é a de um “morto” ou de um “espelho vazio”, permitindo que o analisando assuma sua própria falta-a-ser.

3. Do Simbólico ao Real: Limites e Transformações

A transição da “primeira clínica” para a “segunda clínica” de Lacan marca a passagem da ênfase no significante para a ênfase no gozo e na estrutura do nó borromeano.

A Primeira Clínica: O Poder do Sentido

Na fase inicial, o sintoma é visto como um símbolo, uma mensagem que “fala” e pede para ser lida. A interpretação analítica buscava a “palavra plena” que fizesse o sintoma desaparecer ao revelar sua verdade oculta. Lacan afirmava que o sintoma se resolve inteiramente em uma análise linguageira, por ser ele mesmo estruturado como linguagem.

A Segunda Clínica: O Real do Gozo

Com o tempo, Lacan introduz o conceito de “mais-de-gozar”, homólogo à mais-valia marxista, indicando que o saber trabalhando produz um resto de gozo. O Real surge como o “impossível” de se dizer todo. Aqui, o analista percebe que a interpretação não visa apenas o sentido, mas o “núcleo de real” que resiste à palavra.

Do Sintoma ao Sinthoma

A mudança decisiva culmina na noção de “sinthoma” (com a grafia antiga). Enquanto o sintoma neurótico é uma mensagem decifrável, o sinthoma é aquilo que permite a um sujeito, como James Joyce, “grampear” o real, o simbólico e o imaginário, mesmo na ausência do Nome-do-Pai. O sinthoma é o que permite ao nó de três manter-se e ter consistência.

4. O Real como Norte e a Lógica do Impossível

O Real é o que “não para de não se escrever”. Ele é a bússola da intervenção analítica moderna porque designa o ponto de falha onde nenhuma fala é suficiente.

O Real como o Inexorável

Lacan define o Real como “aquilo que sempre volta ao mesmo lugar”. Na clínica, isso se manifesta no automatismo de repetição, onde o sujeito tropeça sempre no mesmo encontro faltoso, a tiquê. O tratamento analítico não visa a uma cura idealista, mas a levar o sujeito a “saber fazer” com seu sinthoma e com a inexistência da relação sexual.

A Clínica além da Decifração

O Real como norte implica que a análise não termina em um saber absoluto, mas no reconhecimento de uma falta irredutível no Outro. O analista deve atuar no “corte”, separando o desejo da demanda e isolando o objeto a como causa. Como Lacan descreve, o Real é o “impossível” demonstrado pela lógica, e a análise deve elevar a impotência do sujeito à impossibilidade lógica do Real.

5. Mudanças na Intervenção Analítica

A transição para uma clínica do Real exige que a intervenção do analista mude seu eixo. Se na “primeira clínica” a interpretação buscava a decifração de um enigma para produzir um novo sentido, na orientação pelo Real a interpretação torna-se menos explicativa e mais cortante.

O Corte e o Ato

A interpretação analítica não deve ser entendida como uma aula de hermenêutica dada ao paciente. Ela funciona através do corte, que interrompe a cadeia significante e permite que o sujeito se confronte com o vazio que sustenta seu desejo. No Seminário 10, Lacan sugere que a interpretação não é uma explicação, mas o desvelamento de um resto, indicando o que o sujeito deve assumir ao fim de seu percurso, ou seja, sua castração. O corte é, portanto, o modo mais eficaz da intervenção analítica, pois impede que o discurso se perca em uma “parolagem” infinita, reconduzindo o sujeito à dimensão da falta.

O Manejo do Tempo Lógico

A intervenção também se baseia no manejo do tempo lógico, que se diferencia do tempo cronológico do relógio. Lacan divide esse processo em três tempos: o instante de ver, o tempo para compreender e o momento de concluir. Na clínica, o analista utiliza a suspensão da sessão como uma pontuação que precipita o “momento de concluir” do sujeito, impedindo que ele se proteja no “trabalho forçado” de um discurso que apenas busca seduzir o Outro.

Intervenções Orientadas pelo Gozo

A interpretação deve visar o mais-de-gozar (surplus-enjoyment). Como o saber trabalha produzindo entropia (perda de gozo), o analista intervém para isolar o objeto a enquanto causa, e não apenas como meta do desejo. Isso significa que a análise não busca “curar” o gozo através da compreensão, mas permitir que o sujeito tenha um “saber-fazer” com esse resto ineliminável.

6. O Lugar do Analista

A posição do analista sofre uma subversão radical: ele deixa de ser um “Mestre” ou um pedagogo para ocupar o lugar de um objeto.

O Analista como Objeto a

O analista situa-se no lugar da “causa do desejo” do analisando, funcionando como o objeto a da fantasia. Ao ocupar essa posição de “lixo” ou dejeto, o analista permite que o sujeito projete sua busca de verdade, mas, ao final, ele deve “cair” dessa posição para que o sujeito assuma sua própria falta-a-ser. No Seminário 8, Lacan usa a metáfora do jogo de bridge: o analista deve comportar-se como um “morto” (o parceiro que não joga ativamente), permitindo que a distribuição das cartas (os significantes) revele a verdade do jogo do sujeito.

Sustentação do Vazio do Outro

O analista não deve oferecer ao sujeito uma imagem de completude. Sua função é sustentar o vazio do Outro (S de A barrado), demonstrando que não há um garantidor último da verdade. Como afirma Lacan, o analista deve “manter o lugar vazio onde é convocado este significante que só pode ser anulando todos os outros”, o significante fálico como índice da falta.

Responsabilidade Ética e o Fim da Posição de Mestre

Abandonar a posição de mestre significa que o analista não dirige a vida do paciente, nem impõe seus próprios valores. A responsabilidade ética do ato analítico reside em não ceder sobre o desejo de levar a análise até o seu limite, que é o desvelamento do objeto a e o atravessamento da fantasia.

7. Importância na Formação do Psicanalista

A formação do analista não é um acúmulo de saber universitário, mas uma transformação de sua posição subjetiva.

Abandono do Ideal de Cura Total

A formação exige que o futuro analista abandone o ideal de uma “cura total” ou de uma “normalização genital”. Lacan critica a ideia de que a análise deveria levar a uma “maturidade emocional” idealizada. Pelo contrário, a análise didática deve confrontar o sujeito com o “desamparo absoluto” (Hilflosigkeit), onde o homem percebe que, em sua morte e em seu desejo, não pode esperar ajuda de ninguém.

Centralidade da Própria Análise

Ninguém pode conduzir uma análise além do ponto que atingiu em sua própria. O rigor teórico é necessário para que o analista saiba o que faz quando intervém, mas esse saber deve ser um “não-saber” elaborado, que não fecha a porta para a surpresa do inconsciente. O analista é, ele mesmo, um “sinthoma” dentro do laço social, e sua formação implica suportar a “fenda do significante” em sua própria carne.

8. Impactos no Setting Analítico

O setting (enquadre) deixa de ser uma regra administrativa para se tornar o espaço topológico de um encontro.

Espaço de Encontro com o Real

O setting é a “outra cena” onde o Real se manifesta através do que “não para de não se escrever”. O analista maneja o enquadre para que o sujeito não transforme o tratamento em um álibi para sua procrastinação obsessiva. O silêncio do analista, por exemplo, não é uma ausência, mas a presença de um vazio que convoca a fala plena do sujeito.

Limites da Interpretação no Setting

No setting, a interpretação encontra seu limite na presença real do analista, que é ininterpretável. O analista oferece-se como suporte para as demandas, mas sua “não-resposta” é o que permite que o desejo do sujeito se articule para além das necessidades biológicas.

9. Síntese Final

A clínica lacaniana, orientada pelo Real, redefine completamente a direção do tratamento:

  1. O Real redefine a direção: O objetivo não é o sentido infinito, mas isolar o núcleo de gozo que resiste ao Simbólico.
  2. Saber-fazer com o gozo: A análise visa elevar a impotência do sujeito (não conseguir transar com a verdade) à impossibilidade lógica (não há relação sexual), permitindo um saber-fazer com o sinthoma.
  3. Posição do Analista: O analista atua como objeto a, sustentando a transferência sem usar sua pessoa como modelo.
  4. Articulação Necessária: A formação articula teoria, ética e prática sob o rigor da lógica e da topologia (RSI), garantindo que a psicanálise não se degrade em uma pedagogia ou psicoterapia comum.

Conclusão: Importância para a Formação e a Atuação

Para o estudante de psicanálise, compreender que o Real é o norte da clínica é o que impede que sua prática se torne uma forma de dominação ou de obscurantismo. A formação analítica exige um compromisso com a verdade que “não se diz toda”, protegendo a singularidade de cada caso contra as pressões de normalização da sociedade contemporânea.

No setting, o analista que sustenta essa posição ética permite que o analisando atravesse sua fantasia e encontre, no lugar do sofrimento neurótico, a dignidade de um desejo que não se submete à demanda do Outro. O analista é aquele que, tendo reduzido as miragens de seu próprio eu, pode oferecer um lugar para que o Outro seja nomeado, permitindo que o “não-ser” do sujeito venha a ser através da fala.

Referências Bibliográficas

  • LACAN, J. (1953-1954). O Seminário, livro 1: os escritos técnicos de Freud. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.
  • LACAN, J. (1954-1955). O Seminário, livro 2: o eu na teoria de Freud e na técnica da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.
  • LACAN, J. (1955-1956). O Seminário, livro 3: as psicoses. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.
  • LACAN, J. (1959-1960). O Seminário, livro 7: a ética da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.
  • LACAN, J. (1960-1961). O Seminário, livro 8: a transferência. Rio de Janeiro: Zahar.
  • LACAN, J. (1962-1963). O Seminário, livro 10: a angústia. Rio de Janeiro: Zahar.
  • LACAN, J. (1964). O Seminário, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.
  • LACAN, J. (1969-1970). O Seminário, livro 17: o avesso da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.
  • LACAN, J. (1975-1976). O Seminário, livro 23: o sinthoma. Rio de Janeiro: Zahar.
  • LACAN, J. (1998). Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.

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