Tag: A função do Sujeito Suposto Saber na transferência analítica

Diferenças Clínicas entre Freud e Lacan

Diferenças Clínicas entre Freud e Lacan

Diferenças Clínicas entre Freud e Lacan

  1. A Clínica de Sigmund Freud

Para Freud, o inconsciente é concebido primariamente como um reservatório de conteúdos recalcados que buscam expressão. A tarefa do analista, nesse contexto, é a de um decifrador. O inconsciente freudiano é dinâmico: há um conflito entre forças repressoras e impulsos que buscam a consciência.

  • Inconsciente e Sentido Latente: A clínica freudiana é voltada para a interpretação do sentido latente. Freud afirma que o conteúdo manifesto de um sonho, por exemplo, é um substituto distorcido para pensamentos inconscientes que a análise deve revelar. Como ele explica em suas conferências, “a interpretação de sonhos tem por objetivo a remoção do disfarce a que os pensamentos do que sonha foram submetidos”.
  • Reconstrução da História: Freud enfatiza a reconstrução da história do sujeito, buscando preencher as lacunas da memória. Para ele, o sintoma está ancorado em eventos do passado, geralmente traumas infantis ou fantasias sexuais precoces que foram esquecidas. O sucesso terapêutico estaria na “reintegração, pelo sujeito, da sua história até os seus últimos limites”.
  • Transferência como Repetição: Na ótica freudiana, a transferência é vista como a repetição de vínculos infantis. O paciente não recorda o passado, mas o atua (acting out) na relação com o médico, transferindo para ele sentimentos dirigidos originalmente aos pais.
  • Fortalecimento do Ego: O objetivo final da análise freudiana é tornar o inconsciente consciente e, por conseguinte, fortalecer o Ego para que ele possa mediar melhor as pressões do Id e do Superego. É a famosa máxima: Wo Es war, soll Ich werden (Onde estava o Isso, o Eu deve advir).
  • Setting Estável: Freud propunha um setting estável, com sessões regulares e duração fixa, comparando o analista a um cirurgião que mantém a neutralidade e o foco técnico para superar as resistências do paciente.

  1. A Clínica de Jacques Lacan

Lacan opera um retorno a Freud, mas através de uma lente linguística e topológica. Para ele, o inconsciente não é um lugar de instintos brutos, mas é “estruturado como uma linguagem”.

  • Linguagem e Significante: A clínica lacaniana é orientada pelo significante. Lacan define o significante como “aquilo que representa um sujeito para outro significante”. Isso significa que o sujeito não é uma entidade plena, mas alguém que surge na fenda entre os significantes.
  • Interpretação como Ato e Corte: Diferente de Freud, que buscava explicar o sentido, Lacan vê a interpretação como um ato de corte ou pontuação. A interpretação lacaniana não visa dar mais sentido (o que ele chama de “alimentar o sintoma”), mas sim reduzir os significantes ao seu não-senso, revelando a submissão do sujeito à cadeia simbólica. Como ele afirma: “a interpretação não é aberta a todos os sentidos… ela tem por efeito fazer surgir um significante irredutível”.
  • Transferência e o Sujeito Suposto Saber: Lacan redefine a transferência como a instauração do “Sujeito Suposto Saber” (S.s.S.). A transferência começa no momento em que o paciente supõe que o analista detém o saber sobre a verdade do seu desejo. O analista, contudo, deve manobrar essa posição para não se tornar um ideal, mas sim a causa do desejo do analisante (objeto a).
  • Desejo e Gozo: O objetivo não é a adaptação ou o fortalecimento do Ego — que Lacan vê como uma função de desconhecimento e alienação imaginária. O objetivo é o deslocamento subjetivo e o confronto com o desejo e o gozo. Lacan destaca que “o desejo do homem é o desejo do Outro”, significando que o desejo é mediado pelo que o sujeito percebe no campo do Outro.
  • Tempo Lógico e Sessão Variável: Lacan rompe com o tempo cronológico de Freud, introduzindo o tempo lógico (instante de ver, tempo de compreender e momento de concluir). Isso justifica a sessão de duração variável: o analista interrompe a sessão no momento em que um efeito de significante é produzido, impedindo que o sujeito se perca na “fala vazia” da racionalização.
  1. Diferenças Clínicas Centrais

A transição da clínica freudiana para a lacaniana envolve mudanças profundas na ética e na técnica.

  • A Posição do Analista: Em Freud, o analista é um decifrador que busca o metal puro da verdade recalcada no minério das associações. Em Lacan, o analista é um operador do desejo. Ele deve ocupar o lugar do objeto a (o resto, a queda da divisão do sujeito) para sustentar a transferência sem ceder à tentação de curar por sugestão. Lacan alerta que o maior risco para o analista é agir a partir do seu próprio ego, tentando normalizar o paciente segundo seus próprios padrões.
  • A Natureza da Interpretação: A interpretação freudiana é frequentemente explicativa e histórica. A lacaniana é pontual e, por vezes, enigmática, visando o “além” do discurso. Lacan afirma que o silêncio do analista é uma ferramenta para fazer o sujeito enfrentar o seu próprio desejo, funcionando como um “obturador” ou “resto” que cai de todo discurso.
  • Técnica vs. Singularidade: Enquanto a técnica pós-freudiana tendeu à padronização (análise das resistências, reforço do ego), Lacan defende uma clínica orientada pela singularidade absoluta de cada caso. O analista não sabe de antemão o que o paciente dirá; ele deve manter uma “douta ignorância”.
  1. Importância na Formação do Psicanalista

A formação não pode ser separada da teoria nem da própria análise do candidato.

  • Teoria e Escuta: A teoria não serve para enquadrar o paciente em gavetas diagnósticas, mas para orientar a escuta. Sem a fundamentação no conceito de significante, o analista corre o risco de cair no ecletismo técnico ou no senso comum psicológico.
  • Posicionamento Ético: A formação exige que o analista reconheça seu próprio desejo e o lugar que ocupa no tratamento. Lacan enfatiza que o analista deve ser “bastante morto” (em seu ego) para não ser capturado na relação imaginária especular com o paciente.
  • A Própria Análise: Freud e Lacan concordam que a análise pessoal é a condição sine qua non. Somente ao atravessar sua própria castração e reconhecer a falta no Outro, o analista pode sustentar o lugar de Sujeito Suposto Saber sem se acreditar de fato nele.
  1. Impacto no Setting Analítico

O setting não é um mero arranjo administrativo; ele reflete a concepção de sujeito e inconsciente adotada.

  • Setting como Parte Ativa: O setting lacaniano é dinâmico. O uso do corte e da sessão variável serve para desestabilizar o ego e forçar o sujeito a se haver com o que “isso fala” no inconsciente. Não é um lugar de conforto, mas de trabalho subjetivo.
  • Produção de Subjetividade: Diferente de uma clínica que visa a adaptação do sujeito à realidade social (como em algumas vertentes da Ego Psychology), a psicanálise visa a produção de uma nova subjetividade. Trata-se de o sujeito assumir sua própria verdade, por mais traumática que ela seja, em vez de ser “curado” por meio da identificação com o analista.
  • A Falta no Centro: O setting deve preservar o lugar da falta. Se o analista responde às demandas de amor ou conselhos do paciente, ele fecha o inconsciente. A ética da psicanálise exige manter a distância entre o Ideal do Eu e o objeto a, permitindo que o desejo circule e o sujeito se reconheça em sua divisão.

Conclusão

Compreender as diferenças entre a clínica freudiana e a lacaniana é fundamental para a atuação no setting analítico. Enquanto Freud nos legou as ferramentas para explorar as profundezas da memória e do recalque, Lacan nos ensinou a manobrar o significante e o tempo lógico para atingir o real do desejo. A formação do psicanalista, portanto, não é um acúmulo de saber intelectual, mas um posicionamento ético constante que respeita a falta e a singularidade do sujeito falante. O analista não é aquele que sabe a resposta, mas aquele que sustenta a pergunta, permitindo que o analisando, ao término de sua jornada, possa advir lá onde “Isso era”.

Referências Bibliográficas

FREUD, Sigmund. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago Editora e Seminários de Lacan.

  • Volume I: Publicações Pré-Psicanalíticas e Esboços Inéditos.
  • Volume II: Estudos sobre a Histeria.
  • Volume III: Primeiras Publicações Psicanalíticas.
  • Volume IV: A Interpretação dos Sonhos (Parte I).
  • Volume V: A Interpretação dos Sonhos (Parte II) e Sobre os Sonhos.
  • Volume VI: Sobre a Psicopatologia da Vida Cotidiana.
  • Volume VII: Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade.
  • Volume VIII: Os Chistes e sua Relação com o Inconsciente.
  • Volume IX: Gradiva de Jensen.
  • Volume X: Duas Histórias Clínicas (O Pequeno Hans e o Homem dos Ratos).
  • Volume XI: Cinco Lições de Psicanálise.
  • Volume XII: O Caso Schreber e Artigos sobre Técnica.
  • Volume XVII: História de uma Neurose Infantil.
  • Volume XVIII: Além do Princípio do Prazer e Psicologia de Grupo.
  • Volume XIX: O Ego e o Id.
  • Volume XX: Inibições, Sintomas e Ansiedade e A Questão da Análise Leiga.
  • Volume XXI: O Mal-Estar na Civilização.
  • Volume XXII: Novas Conferências Introdutórias.
  • Volume XXIII: Moisés e o Monoteísmo e Esboço de Psicanálise.
  • LACAN, Jacques. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998.
  • LACAN, Jacques. O Seminário. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor (exceto onde indicado):
  • LACAN, Jacques. Seminário 1: Os escritos técnicos de Freud.
  • LACAN, Jacques. Seminário 2: O eu na teoria de Freud e na técnica da psicanálise.
  • LACAN, Jacques. Seminário 3: As psicoses.
  • LACAN, Jacques. Seminário 4: A relação de objeto.
  • LACAN, Jacques. Seminário 5: As formações do inconsciente.
  • LACAN, Jacques. Seminário 6: O desejo e sua interpretação.
  • LACAN, Jacques. Seminário 7: A ética da psicanálise.
  • LACAN, Jacques. Seminário 8: A transferência.
  • LACAN, Jacques. Seminário 9: A identificação. Recife: Centro de Estudos Freudianos do Recife, 2001.
  • LACAN, Jacques. Seminário 10: A angústia.
  • LACAN, Jacques. Seminário 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise.
  • LACAN, Jacques. Seminário 12: Problemas cruciais para a psicanálise. Recife: Centro de Estudos Freudianos do Recife, 2006.
  • LACAN, Jacques. Seminário 13: O objeto da psicanálise.
  • LACAN, Jacques. Seminário 14: A lógica do fantasma. Recife: Centro de Estudos Freudianos do Recife, 2008.
  • LACAN, Jacques. Seminário 15: O ato psicanalítico.
  • LACAN, Jacques. Seminário 16: De um Outro ao outro.
  • LACAN, Jacques. Seminário 17: O avesso da psicanálise.
  • LACAN, Jacques. Seminário 18: De um discurso que não fosse semblante.
  • LACAN, Jacques. Seminário 19: …ou pior.
  • LACAN, Jacques. Seminário 19b: O saber do psicanalista. Recife: Centro de Estudos Freudianos do Recife, 2000.
  • LACAN, Jacques. Seminário 20: Mais, ainda.
  • LACAN, Jacques. Seminário 21: Os não-tolos erram / Os nomes do pai. Porto Alegre: Editora Fi, 2018.
  • Seminário 22: RSI.
  • LACAN, Jacques. Seminário 23: O sinthoma.
  • LACAN, Jacques. Seminário 24: L’insu que sait de l’une-bévue s’aile à mourre.
  • LACAN, Jacques. Seminário 25: O momento de concluir.
  • LACAN, Jacques. Seminário 27: Dissolução.

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