Tag: Aceleração do tempo e imperativo de produtividade no psiquismo

Novas Formas de Sofrimento Psíquico — Uma Revisão Crítica

Novas Formas de Sofrimento Psíquico — Uma Revisão Crítica

1. Introdução: O Sofrimento na Contemporaneidade

O sofrimento psíquico não é uma entidade biológica estática, mas uma produção que se articula com as transformações socioculturais de cada época. Na contemporaneidade, assistimos a um deslocamento do mal-estar: se na modernidade freudiana o conflito central residia na repressão do desejo, hoje o sofrimento está visceralmente ligado ao excesso, à hiperconectividade e ao culto à performance.

As mudanças no mundo globalizado promovem uma fragmentação temporal onde a intensidade da experiência atropela o sentido da mesma. Como resultado, as referências simbólicas estáveis, que antes ofereciam um contorno para a identidade, entraram em declínio, fragilizando os laços sociais e deixando o sujeito à mercê de um desamparo estrutural.

Citação: Zygmunt Bauman (1998) esclarece que, “diferentemente do mal-estar moderno que estava relacionado à repressão, o mal-estar atual está associado ao excesso e à liberdade, que acabam por ocasionar a fragmentação temporal, a desvalorização da historicidade e o domínio da intensidade sobre o sentido da experiência”.

  • Explicação da citação: Bauman aponta que o sujeito contemporâneo não sofre pelo que lhe é proibido, mas pela pressão de ter que aproveitar tudo instantaneamente. Essa falta de “história” impede que o sujeito construa uma narrativa sobre sua própria vida, gerando um vazio existencial onde antes havia um conflito de desejos.

2. Sintomas Contemporâneos

A clínica psicanalítica atual observa que o sofrimento se deslocou do campo da representação (ideias e palavras) para os registros do corpo e da ação.

A. Ansiedade e Pânico como Resposta à Performance

Os transtornos de ansiedade e as crises de pânico surgem como respostas ao imperativo de produtividade. O sujeito tenta se adaptar excessivamente à norma social — o que se chama de normalopatia — até que uma crise disruptiva ocorra.

Citação: “O episódio agudo de estranhamento geralmente ataca existências excessivamente ordenadas, disciplinadas e onde nenhum significante parece escapar ao campo do Outro”.

  • Explicação da citação: Christian Dunker explica que o pânico atinge justamente quem tenta ser “normal demais”. Quando o indivíduo se torna apenas um “mero indivíduo” funcional na massa, sem espaço para sua singularidade, a angústia surge como uma desaparição do sujeito (afânise), denunciando que a vida se tornou puramente mecânica.

B. Depressões e Falha Narcísica

Estudos recentes mostram que a depressão mantém níveis elevados, atingindo cerca de 30% da população. Diferente da melancolia clássica, a depressão contemporânea é marcada por sensações de futilidade, inautenticidade e um profundo vazio existencial. O sofrimento é exacerbado por dificuldades financeiras e pela pressão da dupla jornada, afetando especialmente mulheres e jovens.

C. Toxicomanias, Compulsões e o “Consumidor Unicista”

O uso de substâncias e as compulsões são modos contemporâneos de “tratar” um gozo que não encontra limites no simbólico. O consumidor unicista é aquele que fixa seu gozo em um objeto insubstituível (droga, álcool ou entretenimento), substituindo a relação com o saber pelo objeto.

Citação: “Neste caso, não há substituição de saber (S2) mas fixação ao imperativo de gozo (S1 = a)”.

  • Explicação da citação: Na psicanálise lacaniana, o saber (S2) deveria mediar o gozo. No entanto, nas toxicomanias, o sujeito se cola ao objeto (a) sob a ordem de um mestre tirânico (S1). O gozo torna-se monótono e autístico, rompendo os vínculos de filiação e história do sujeito.

D. Transtornos Alimentares e Automutilações (O Corporalista)

O corpo tornou-se o palco principal do mal-estar. O tipo clínico corporalista utiliza a imagem corporal como resposta a uma demanda social de perfeição. Na anorexia, o sujeito “faz-se nada” diante do olhar do Outro para denunciar o excesso de consumo da cultura. Pesquisas indicam que até 21% de adolescentes em certas classes sociais apresentam traços anoréxicos, o que reforça o sintoma como resposta à cultura do excesso.

3. Revisão Crítica: Entre Medicalização e Escuta

Há hoje uma forte tendência à patologização rápida. O mercado da saúde mental muitas vezes reduz a dor psíquica a uma disfunção neuroquímica, buscando a supressão imediata do sintoma.

Citação: “A mercantilização do sofrimento psíquico apóia-se, portanto, em uma confiança na tipificação”.

  • Explicação da citação: Ao rotular alguém como “depressivo” ou “ansioso” de forma genérica, o sistema de saúde transforma o sofrimento em uma mercadoria (diagnóstico + remédio). A psicanálise critica essa postura, pois o sintoma não é um erro biológico, mas uma “formação de compromisso” — uma tentativa singular do sujeito de lidar com uma dor que não consegue nomear.

4. Freud e Lacan como Referência

Para entender essas novas configurações, recorremos aos fundamentos teóricos:

  • Freud: Já em 1895, Freud diferenciava a neurastenia da “neurose de angústia”, descrevendo a irritabilidade e a expectativa angustiada que hoje reconhecemos no pânico. Ele nos ensina que o mal-estar é inerente à civilização, pois a vida em sociedade exige a renúncia de parte do gozo pulsional.
  • Lacan: Introduz a ideia do discurso capitalista, onde o enfraquecimento do “Nome-do-Pai” (as leis simbólicas) deixa o sujeito sem bússola, empurrando-o para um gozo sem limites.

Citação: “Aquilo que funciona como valor de troca no inconsciente é o falo… o que funciona como valor de uso é o gozo”.

  • Explicação da citação: Lacan propõem o conceito de cálculo neurótico do gozo. Na contemporaneidade, o sujeito tenta tratar seu gozo (uso) como se fosse uma mercadoria (troca). Quando essa conta não fecha, o sujeito entra em colapso, resultando nos sintomas de vazio e pânico que vemos na clínica.

5. Impacto no Setting Analítico

As transformações socioculturais e as novas modalidades de sofrimento exigem do analista um manejo clínico que sustente a tensão entre a urgência do mundo externo e a temporalidade necessária para a subjetivação. O setting analítico torna-se um dos poucos espaços de resistência contra a homogeneização e a pressa.

Necessidade de escuta que vá além da demanda de alívio imediato

O sujeito contemporâneo frequentemente chega ao consultório imbuído da lógica do consumo, buscando uma solução técnica e rápida para seu mal-estar. Muitos se apresentam como “pacientes profissionais”, que circulam por diversos discursos e práticas à procura de um saber instrumental ou de uma “religiosidade de resultados”. O desafio da clínica é não ceder a essa demanda de supressão sintomática.

Citação: “A psicanálise, no entanto, se distinguiria das práticas de cura fundadas na substituição de universos simbólicos… investindo suas forças numa estratégia de retificação do sujeito”.

  • Explicação: O autor Christian Dunker ressalta que, enquanto outras abordagens buscam trocar a “teoria da doença” do paciente por uma teoria médica (remediando o sintoma), a psicanálise foca na mudança da posição do sujeito em relação ao seu próprio sofrimento. Não se trata de dar uma resposta pronta, mas de permitir que o sujeito questione o que aquele sintoma diz sobre seu desejo.

Sustentar o tempo da análise em uma cultura da urgência

Em uma cultura marcada pela aceleração e pela fragmentação temporal, o tempo da análise funciona como uma “escansão” necessária. A análise introduz uma descontinuidade no fluxo constante de produtividade e consumo. O analista deve sustentar esse tempo de espera, permitindo que a queixa se transforme em uma narrativa histórica e singular.

Citação: “Neste tipo clínico, tudo se passa como se o saber… tornasse o gozo imune a qualquer forma de detenção, escansão ou suspensão”.

  • Explicação: Em casos de excesso, o sujeito vive um gozo contínuo que não para. A função do analista é justamente produzir esse corte ou suspensão, permitindo que o sujeito saia do modo “automático” e comece a elaborar sua experiência de forma simbólica.

Manejo ético da transferência diante de sujeitos menos tolerantes à frustração

Muitas manifestações atuais, como o pânico e a “normalopatia”, revelam sujeitos com uma fragilidade simbólica acentuada e baixa tolerância à falta. O manejo da transferência exige, por vezes, que o analista ocupe o lugar de um “manejo sustentador e esperançoso”, oferecendo um suporte para que o sujeito possa suportar a angústia de aniquilamento.

A transferência também é afetada pela “estetização do eu”, onde o paciente pode ver a análise apenas como um acessório para seu estilo de vida ou uma forma de “autoenriquecimento”. O analista deve ser ético ao frustrar essa demanda de imagem, reconduzindo o trabalho para a falta estrutural que constitui o sujeito.

Atenção às novas modalidades de laço e às manifestações digitais do sintoma

As relações inter-humanas atuais são mediadas por tecnologias que podem amplificar a sensação de solidão e a falsificação do real. O “imaginário coletivo” contemporâneo é constituído por sentimentos de vazio existencial e inautenticidade decorrentes desse distanciamento afetivo. O analista deve estar atento a como o sintoma se manifesta nessas redes — por exemplo, na “objetificação estética” ou na transformação de si mesmo em uma marca digital.

6. Importância para a Formação do Psicanalista

A formação do analista não se resume à teoria técnica; ela exige uma sensibilidade crítica para ler o mundo e o mal-estar que ele produz.

Desenvolver leitura crítica do contexto sociocultural sem perder a dimensão estrutural

O analista em formação deve ser capaz de identificar como fatores como desemprego, desigualdade de gênero e crises sanitárias impactam a saúde mental. Por exemplo, pesquisas indicam que jovens do sexo feminino e pessoas com dificuldades financeiras sofreram aumentos significativos de depressão e ansiedade recentemente. Contudo, essa leitura sociológica não deve substituir a dimensão estrutural do inconsciente. O sofrimento é multifacetado: ele é tanto o resultado de configurações sociais quanto algo inerente à condição humana.

Evitar posições moralizantes ou adaptativas

É um risco constante transformar a psicanálise em um instrumento de adaptação social ou de normalização. O analista não deve ser um pedagogo que ensina o paciente a “viver melhor” segundo os padrões da época.

Citação: “A valorização da experiência, como vivência, o ideal de autoenriquecimento, a criatividade como paradigma e o estilo… são teses de grande receptividade cultural, o que, por si, já deveria levantar nossas suspeitas”.

  • Explicação: O psicanalista deve suspeitar de discursos que prometem felicidade e criatividade plena, pois eles podem ser apenas extensões da ideologia estética dominante. O objetivo da análise não é criar uma “obra de arte” de si mesmo, mas permitir que o sujeito lide com sua verdade inconsciente, mesmo que ela seja dolorosa.

Sustentar a ética do desejo frente às demandas de normalização

Diante de sujeitos que buscam ser “excessivamente normais” (normalopatas), o analista deve sustentar a ética do desejo. Muitas vezes, o que o paciente traz como “doença” é sua única forma de protesto contra uma vida mecanizada. A formação deve preparar o analista para não “curar” esse protesto, mas para dar voz ao sujeito que habita ali.

Preparar-se para intervenções precisas diante de sintomas marcados pelo excesso

O analista deve estar pronto para lidar com o “consumidor unicista” e com o gozo autístico das toxicomanias e compulsões. Nesses casos, a interpretação clássica pode ser ineficaz, exigindo intervenções que ajudem na retomada da continuidade do ser e no enraizamento simbólico. O psicoterapeuta precisa reconhecer a singularidade do outro para manter a esperança de que ele possa emergir do caos.

7. Conclusão: A Importância para a Formação e o Setting Analítico

Compreender as novas formas de sofrimento psíquico é fundamental para que o psicanalista não reduza o sujeito a classificações diagnósticas ou protocolos padronizados. O mal-estar contemporâneo — marcado por solidão, vazio e desamparo — não pode ser tratado como simples desvio a ser corrigido, mas como expressão de um impasse na relação com o desejo e o gozo. Nesse contexto, o setting analítico deve sustentar-se como espaço ético de resistência, onde a queixa genérica possa se transformar em demanda singular.

Para o analista em formação, esse conhecimento é decisivo, pois implica abandonar a posição de especialista que “conserta falhas” e assumir uma escuta que suporte o desamparo sem tamponá-lo com respostas rápidas. Sustentar o não-saber e a posição analítica permite que o sintoma seja lido como construção subjetiva diante de um mal-estar estrutural e histórico, e não como erro ou déficit. A formação, assim, orienta-se pela responsabilidade ética e pela preservação da singularidade do caso.

Em última instância, a clínica psicanalítica contemporânea constitui um ato de encontro que reconhece o sujeito em sua fragilidade e humanidade. Ao acolher o sintoma como tentativa de subjetivação em um mundo que tende a objetificar e descartar, o analista possibilita que o sujeito reencontre uma forma própria de existir e de se sentir real. A prática não visa normalizar, mas abrir espaço para a invenção de uma vida que faça sentido singular.

Referências Bibliográficas

  • BAUMAN, Z. O mal-estar da pós-modernidade. Tradução de M. Gama e C. M. Gama. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.
  • BERNARDES, J. Ansiedade, insônia, estresse, depressão: estudo mostra como saúde mental evoluiu na pandemia. Jornal da USP, 21 jun. 2022.
  • CAMBUÍ, H. A.; NEME, C. M. B. O sofrimento psíquico contemporâneo no imaginário coletivo de estudantes de Psicologia. Psicologia: Teoria e Prática, v. 16, n. 2, p. 97-105, ago. 2014.
  • DUNKER, C. I. L. Formas de apresentação do sofrimento psíquico: alguns tipos clínicos no Brasil contemporâneo. Revista Mal Estar e Subjetividade, v. 4, n. 1, mar. 2004.
  • MORETTO, C.; BARBOSA, C. G. A psicologia no cuidado do sofrimento humano: novas perspectivas de atuação. Curitiba: Editora Appris, 2009.
  • WINNICOTT, D. W. O brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Imago, 1975.

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