Tag: Complexo de Édipo e a estruturação do desejo na infância

Freud – As Fases do Desenvolvimento Psicossexual

Freud - As Fases do Desenvolvimento Psicossexual

O Desenvolvimento Psicossexual na Clínica Freudiana

Hoje, exploraremos como Freud revolucionou o entendimento da mente humana ao postular que a vida anímica é indissociável da vida sexual, desde os primórdios da infância até a maturidade. Nosso guia principal será a obra “Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade” (1905). Mas antes de falarmos sobre as fases do desenvolvimento psicossexual, é fundamental falarmos primeiramente sobre a ideia de que a criança possui uma disposição perversa polimorfa. Isso é um dos pilares da teoria freudiana, indicando que a disposição para as perversões não é uma raridade patológica, mas a disposição originária e universal da pulsão sexual humana , Segundo os escritos de Freud, a criança é considerada “perversa polimorfa” porque traz em sua constituição os germes de todas as transgressões sexuais possíveis, as quais podem ser despertadas sem grande resistência, já que os “diques” anímicos — como a vergonha, o asco e a moralidade — ainda não foram construídos ou estão em processo de formação.

Como a criança é perversa polimorfa?

1. Independência das Pulsões Parciais: Na infância, a pulsão sexual não está centrada na função reprodutora, mas é composta por diversas pulsões parciais que buscam satisfação de forma independente em diferentes partes do corpo, denominadas zonas erógenas ,
2. Auto-erotismo: Diferente do adulto “normal”, que busca o prazer em um objeto sexual externo, a atividade sexual infantil é essencialmente auto-erótica , o que significa que o alvo e o objeto do prazer encontram-se no próprio corpo da criança.
3. Aptidão para Transgressões: Sob a influência de estímulos externos ou sedução, a criança pode ser induzida a qualquer prática considerada “perversa” por um adulto, pois ela possui uma aptidão inata para tais atos antes que a educação e o desenvolvimento orgânico imponham restrições.
4. Manifestações Diversas: Essa perversidade polimorfa manifesta-se através de impulsos como a crueldade (sadismo) , o prazer de olhar ou ser olhado ( escopofilia e exibicionismo ) e o interesse erótico por zonas não genitais, como a boca e o ânus.

Em que momento ela é perversa polimorfa?

– Desde o Nascimento até o Período de Latência: Freud afirma que o recém-nascido já traz consigo os germes das moções sexuais que se desenvolvem nos primeiros anos de vida.
– A Primeira Eflorescência (2 a 5 anos): O momento de maior visibilidade dessa disposição ocorre entre os dois e os cinco anos de idade , fase em que a atividade sexual infantil atinge sua primeira florescência antes de entrar no período de latência.
– Fases Pré-genitais: É durante as organizações oral e sádico-anal que a natureza polimorfa é mais evidente, pois a genitália ainda não assumiu o primado sobre as outras fontes de prazer.
– Antes da Construção dos Diques Morais: O caráter polimorfo é dominante enquanto a criança é desprovida de vergonha e não sente repugnância por funções fisiológicas que, mais tarde, serão alvo de asco.

A Normalidade como Restrição da Perversidade:

É fundamental entender que, para a psicanálise, o comportamento sexual normal do adulto é, na verdade, o resultado do recalcamento de grande parte dessa disposição perversa polimorfa da infância. A normalidade exige a subordinação de todas as pulsões parciais ao primado das zonas genitais a serviço da reprodução. Quando essa síntese falha ou quando o recalcamento é excessivo, surgem as perversões (onde a disposição infantil permanece dominante) ou as neuroses (que Freud chama de o “negativo da perversão”, onde os mesmos impulsos são recalcados e transformados em sintomas).

Analogia: Podemos imaginar a sexualidade infantil como uma orquestra em que cada músico toca sua própria melodia de forma independente, buscando apenas o prazer do próprio som (perversidade polimorfa). O desenvolvimento sexual “normal” seria o momento em que um maestro (o primado genital) assume o comando, fazendo com que todos os músicos toquem uma única sinfonia coordenada em direção a um objetivo comum.

Agora iniciaremos falando sobre as fases do desenvolvimento psicossexual:

1. O Escândalo dos “Três Ensaios” e a Sociedade Vitoriana

Para compreendermos a magnitude da obra de Freud, precisamos nos transportar para a virada do século XIX para o XX. Naquele contexto, a opinião popular e médica defendia que a pulsão sexual estava ausente na infância , despertando apenas na puberdade com o objetivo exclusivo da reprodução.

Ao publicar os Três Ensaios , Freud causou um verdadeiro escândalo ao afirmar que as crianças possuem uma vida sexual ativa e que a sexualidade humana não se reduz ao ato genital entre adultos. Ele foi acusado de “pan-sexualismo”, pois sua teoria revelava que o ser humano é movido por desejos que a civilização vitoriana tentava desesperadamente ocultar sob o manto da “inocência infantil”. Freud demonstrou que essa “inocência” é, na verdade, uma amnésia infantil , um esquecimento funcional que encobre os primeiros anos de vida para permitir a construção da moral e da cultura.

2. Conceitos Fundamentais

Definição de Pulsão (Trieb) vs. Instinto:

Um ponto crucial na formação analítica é distinguir a pulsão (Trieb) do instinto animal. Enquanto o instinto é uma resposta biológica fixa a um estímulo, a pulsão é definida como o “representante psíquico de uma fonte endossomática de estimulação que flui continuamente”. A pulsão habita a fronteira entre o somático e o psíquico, exigindo do aparelho mental um “trabalho” constante para lidar com essa pressão interna.

A Libido como Energia Plástica e Móvel:

Freud utiliza o termo Libido para designar a energia quantitativa da pulsão sexual. Diferente de uma força rígida, a libido é extremamente plástica: ela pode se concentrar em objetos externos ( libido objetal ) ou retornar para o próprio ego ( libido narcísica ). Essa plasticidade permite que a libido mude de alvo e de objeto, sendo a base para a criatividade humana através da sublimação ,

O Conceito de Zona Erógena:

Uma zona erógena é qualquer parte da pele ou mucosa em que estímulos específicos provocam uma sensação prazerosa de qualidade sexual. Freud observa que, embora existam zonas “predestinadas” (como a boca e o ânus), qualquer parte do corpo pode assumir essa função. Na clínica, isso é visível na histeria, onde a sensibilidade genital é frequentemente deslocada para outras partes do corpo, como a garganta, criando sintomas como a tosse nervosa.

3. O Percurso das Fases Psicossexuais

O desenvolvimento não ocorre de forma linear, mas através de fases onde diferentes zonas erógenas assumem o protagonismo.

Fase Oral: A Incorporação do Mundo:

A primeira fase é a oral ou canibalesca , Aqui, a atividade sexual ainda está apoiada na função vital da nutrição através do ato de mamar. A criança descobre o prazer na estimulação dos lábios e da boca, o que Freud chama de “chuchar” ou sugar com deleite ,
Nesta fase, a relação com o objeto (o seio materno) é de incorporação: amar é, simbolicamente, devorar. Surge aqui a ambivalência primária : o desejo de sugar (prazer) e, com o aparecimento dos dentes, o impulso de morder (agressão). Um resquício dessa fase na vida adulta pode ser o hábito de fumar ou beijos perversos, enquanto o seu recalcamento pode gerar nojo de comida e vômitos histéricos.

Fase Anal: Controle, Autonomia e Autoridade:

Entre os dois e três anos, a libido concentra-se na zona anal, na organização sádico-anal , O alvo sexual é a estimulação da mucosa intestinal através da retenção ou expulsão das fezes.
As fezes tornam-se o primeiro “presente” que a criança pode oferecer ou negar à autoridade (os pais). Esta fase é marcada pelo binômio controle/submissão , A recusa em defecar pode ser uma forma de obstinação e exercício de poder contra o educador.

Fase Fálica e o Complexo de Édipo:

Por volta dos três aos cinco anos, a zona genital torna-se a principal fonte de prazer, marcando a fase fálica , A criança desenvolve a curiosidade sobre a origem dos bebês e descobre a diferença anatômica entre os sexos.
O Complexo de Édipo: Ocorre a escolha de objeto em direção aos pais: o filho pela mãe e a filha pelo pai.
A Castração: O menino teme a perda do pênis como punição pelo seu desejo (complexo de castração), enquanto a menina vivencia a “inveja do pênis” ao perceber que não o possui. A resolução desse conflito exige a aceitação da barreira do incesto , desviando o desejo para objetos fora da família.

Período de Latência: A Trégua Pulsional:

Após o auge do Édipo, a criança entra em um período de latência , A energia sexual é desviada para fins sociais, escolares e culturais através da sublimação , É nesta fase que se constroem os diques anímicos: asco, vergonha e moralidade ,

Fase Genital: A Síntese da Puberdade:

Na puberdade, ocorre a subordinação de todas as pulsões parciais sob o primado das zonas genitais a serviço da reprodução. O encontro do objeto sexual definitivo é, na verdade, um reencontro com os modelos amados na infância, agora sob uma nova organização altruísta.

4. Dinâmica Clínica e Estruturas

Fixação e Regressão: Quando a Libido “Estanca”:

Nem toda a libido avança para a fase seguinte. Em alguns pontos do desenvolvimento, ocorre a fixação (estancamento), onde uma parte da energia permanece ligada a prazeres infantis. Diante de dificuldades na vida adulta, o sujeito pode realizar uma regressão , retornando a esses pontos de fixação para buscar satisfação substitutiva nos sintomas.

Neurose, Psicose e Perversão:

Perversão: É a persistência da disposição infantil “polimorfa”. O perverso não recalca as pulsões parciais, agindo-as diretamente.

Neurose: Freud define a neurose como o “negativo da perversão” , O neurótico possui as mesmas tendências perversas no inconsciente, mas elas sofrem recalcamento e retornam como sintomas.

Psicose: Relaciona-se a perturbações mais profundas da economia libidinal e da relação com a realidade, embora o texto foque primariamente na neurose e perversão.

Exemplos Práticos: O Traço de Caráter Anal:

Um paciente com perfeccionismo excessivo , mania de limpeza ou avareza extrema está frequentemente remetendo à fase anal. A “limpeza” é uma formação reativa contra o desejo infantil de “sujeira” e prazer com as fezes. A obstinação em manter tudo sob controle reflete a luta infantil contra a autoridade paterna durante o treinamento esfincteriano. No Caso Dora, a mãe de Dora apresentava uma “psicose da dona de casa”, uma obsessão por limpeza que ocupava todo o seu tempo, impedindo o desfrute da vida.

5. A Importância na Formação e no Setting Analítico

Por que o analista precisa dominar esse conteúdo para além da teoria dos livros?

Escuta do Sintoma: A Linguagem Libidinal:

O analista não ouve apenas o relato dos fatos; ele identifica em que fase o paciente está “ancorado”. O sintoma é uma satisfação substitutiva ,

Por exemplo, a tosse nervosa de Dora foi interpretada por Freud como uma representação de uma fantasia de satisfação sexual per os (oral), ligada à sua identificação com a Sra. K. e seu desejo pelo pai. Ouvir o sintoma é decifrar essa gramática do desejo que o paciente desconhece.

Manejo da Transferência:

A transferência é a “reedição” de moções e fantasias infantis projetadas na figura do analista. Entender as fases permite ao analista identificar sua posição no setting :
Se o paciente exige cuidados constantes e validação, pode estar reatualizando a fase oral e colocando o analista no lugar de objeto provedor.

Se o paciente é desafiador, silencia como forma de controle ou “retém” associações, pode estar vivendo uma transferência da fase anal , vendo o analista como um juiz ou autoridade controladora.
No Caso Dora, Freud admite que não percebeu a tempo que ela estava transferindo para ele os sentimentos de vingança que nutria contra o Sr. K., o que levou à interrupção do tratamento.

Conclusão:

Por que este tema é vital?

A teoria do desenvolvimento psicossexual é a “chave do problema das psiconeuroses” , Sem ela, o analista estaria surdo para a base orgânico-sexual que sustenta toda a enfermidade mental. Dominar este conteúdo permite que o profissional transforme o sofrimento mudo do sintoma em uma palavra plena, ajudando o paciente a superar as resistências e a encontrar novas formas de amar e trabalhar.

Como analistas, lidamos com “demônios maldomados” do peito humano; nossa única arma é o conhecimento profundo dessa jornada que cada ser humano percorre desde o primeiro chuchar até a busca pelo objeto de amor.

Analogia para fixação: Imaginem a libido como um exército avançando em território estrangeiro. Se o exército encontra uma cidade muito prazerosa, deixa ali um grande destacamento de soldados (fixação). Se, mais à frente, a batalha fica difícil, os generais ordenam a retirada para aquela cidade onde os soldados ficaram para trás (regressão). O sintoma é o acampamento que esses soldados montam para se proteger da guerra da realidade.

Referências bibliográficas (Freud):

FREUD, Sigmund. ,Três ensaios sobre a teoria da sexualidade , (1905). In: ,Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud ,. Rio de Janeiro: Imago.
FREUD, Sigmund. ,Fragmento da análise de um caso de histeria (Caso Dora) , (1905). In: ,Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud ,. Rio de Janeiro: Imago.
FREUD, Sigmund. ,Sobre a sexualidade infantil , (1905). In: ,Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud ,. Rio de Janeiro: Imago.
FREUD, Sigmund. ,Caráter e erotismo anal , (1908). In: ,Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud ,. Rio de Janeiro: Imago.
FREUD, Sigmund. ,Análise da fobia de um menino de cinco anos (Pequeno Hans) , (1909). In: ,Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud ,. Rio de Janeiro: Imago.
FREUD, Sigmund. ,Sobre um tipo especial da escolha de objeto no homem , (1910). In: ,Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud ,. Rio de Janeiro: Imago.
FREUD, Sigmund. ,A dinâmica da transferência , (1912). In: ,Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud ,. Rio de Janeiro: Imago.
FREUD, Sigmund. ,Introdução ao narcisismo , (1914). In: ,Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud ,. Rio de Janeiro: Imago.
FREUD, Sigmund. ,Pulsões e seus destinos , (1915). In: ,Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud ,. Rio de Janeiro: Imago.
FREUD, Sigmund. ,Conferências introdutórias à psicanálise , (1916–1917). In: ,Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud ,. Rio de Janeiro: Imago.
FREUD, Sigmund. ,A dissolução do Complexo de Édipo , (1924). In: ,Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud ,. Rio de Janeiro: Imago.

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