1 Introdução: A Primazia do Significante
O ensino de Jacques Lacan promove uma subversão radical na psicanálise ao deslocar o eixo da experiência do “eu” (instância imaginária e de desconhecimento) para o sujeito do inconsciente, que é estritamente um efeito da linguagem. Para Lacan, o inconsciente não é um reservatório de instintos, mas sim “estruturado como uma linguagem”. O elemento central dessa estrutura é o significante, o componente material do discurso que, diferentemente do signo linguístico tradicional, não representa uma coisa, mas sim o próprio sujeito em sua divisão.
O ponto de partida essencial para estudantes de psicanálise é a distinção entre signo e significante. Enquanto o signo representa algo para alguém, Lacan define o significante de forma paradoxal: “um significante é o que representa um sujeito para outro significante”. Esta definição implica que o sujeito não possui uma substância própria; ele é o que surge no intervalo entre dois significantes.
Como afirma Lacan no Seminário 11:
“O significante, produzindo-se no campo do Outro, faz surgir o sujeito de sua significação. Mas ele só funciona como significante reduzindo o sujeito em instância a não ser mais do que um significante, petrificando-o pelo mesmo movimento com que o chama a funcionar, a falar, como sujeito”.
Nesta citação, Lacan explica que o ingresso no mundo da linguagem exige um preço: a afânise (desaparecimento) do sujeito vivo para que surja o sujeito da fala. O sujeito é “petrificado” pelo significante, tornando-se um efeito da cadeia discursiva, o que fundamenta a divisão subjetiva representada pelo símbolo $ (sujeito barrado).
2 O Traço Unário e a Repetição
A função do significante no sujeito inicia-se com o que Lacan, extraindo de Freud, denomina traço unário (einziger Zug). O traço unário é a forma mais simples de marca, um “entalhe” que introduz a diferença absoluta no real. Não se trata de uma semelhança qualitativa, mas de uma unidade distintiva que permite ao sujeito contar-se e, consequentemente, repetir-se.
No Seminário 9, Lacan detalha que a identificação primordial do sujeito não é com uma pessoa completa, mas com esse traço único. É essa marca que permite a transição do real para o simbólico. A repetição na psicanálise não é o retorno do mesmo (como um ciclo natural), mas o esforço do sujeito em fazer ressurgir o traço unário original, buscando um gozo que foi perdido no momento em que a marca foi impressa.
3 O Grande Outro e o Tesouro dos Significantes
O significante não exite isoladamente; ele habita o Grande Outro (A), definido como o lugar do código ou o tesouro da linguagem. O sujeito é tributário desse lugar, pois é do Outro que ele recebe sua própria mensagem de forma invertida. A relação entre o sujeito e o Outro é dissimétrica: o Outro é o local onde a fala se articula e onde a verdade pode ser dita, embora o Outro, como conjunto, seja inconsistente e marcado por uma falta.
Lacan utiliza a lógica dos conjuntos para demonstrar que o Outro não é um “Um” totalizante. Existe sempre um significante que falta no Outro, o que Lacan escreve como S (A). Essa falta é o que motiva o desejo do sujeito. O sujeito, ao interrogar o Outro (Che vuoi? – “O que queres?”), depara-se com a hiância do desejo do Outro, o que gera a angústia.
4 As Operações de Alienação e Separação
A constituição do sujeito pelo significante ocorre através de duas operações fundamentais: alienação e separação.
- Alienação: É a primeira submissão do sujeito ao significante. O sujeito é forçado a escolher o sentido (a linguagem) em detrimento do ser (o gozo vivo). Se escolher o ser, ele desaparece do mundo da fala; se escolher o sentido, o sentido só subsiste amputado de uma parte, que é o seu ser.
- Separação: Ocorre quando o sujeito percebe a falta no Outro. Ao notar que o Outro também é marcado pela linguagem e não possui todas as respostas, o sujeito pode “separar-se” e situar seu próprio desejo no intervalo entre os significantes do Outro.
Como Lacan descreve no Seminário 11:
“É no que seu desejo está para além ou para aquém no que ela [a mãe/Outro] diz… é nesse ponto de falta que se constitui o desejo do sujeito”.
Essa citação esclarece que o sujeito não é um receptáculo passivo, mas alguém que busca sua existência naquilo que o Outro não diz, ou seja, no “entre-dito” da cadeia significante.
5 O Falo e o Objeto ‘a’
Dois elementos são cruciais para entender a função do significante no sujeito: o Falo e o Objeto pequeno a.
O Falo (Φ) é o significante do desejo. Ele não é o órgão biológico, mas um símbolo que representa a falta e a castração. Lacan argumenta que o falo é o “significante faltoso” que garante a troca simbólica entre os sexos, pois no nível do real “não há relação sexual”. A castração é, portanto, a aceitação de que o gozo absoluto é proibido pela lei da linguagem.
O Objeto pequeno a é o resto, o resíduo que sobra da divisão do sujeito pelo significante. Ele é a “causa do desejo”. Na fantasia, representada pela fórmula (S ⋄ a), o sujeito barrado sustenta-se por meio desse objeto, que mascara sua própria divisão e falta-a-ser. O objeto a assume formas clínicas como o seio, as fezes, o olhar e a voz, servindo como tamponamento para a hiância do sujeito.
6 A Inexistência da Relação Sexual e a Suplência pelo Discurso
Uma das teses mais provocativas de Lacan, presente nos seminários 18, 19 e 20, é que “não há relação sexual” (Il n’y a pas de rapport sexuel). Isso significa que não existe um programa instintivo ou um significante na linguagem que assegure a harmonia perfeita entre os sexos. Em vez disso, o ser humano recorre a discursos (Mestre, Universitário, Histérica e Analista) para criar laços sociais que supram essa ausência de relação natural.
O significante funciona aqui como uma “ponte” ou “suplência”. Na falta de um saber instintivo sobre o sexo, o sujeito “elocubra” um saber através de lalíngua (lalangue) — a linguagem em sua dimensão de gozo e equívoco.
7 Conclusão: Importância para a Formação e Atuação Clínica
A compreensão da função do significante é o pilar sobre o qual se assenta a prática clínica. Para o analista, o conteúdo da fala do paciente não é um conjunto de informações biográficas, mas uma cadeia significante que deve ser decifrada em seus furos e síncopes.
Implicações para a formação: O psicanalista em formação deve reconhecer que sua própria posição no setting é a de um significante, especificamente o de “sujeito suposto saber”. Ele não deve agir como um mestre que ensina a verdade, mas como aquele que ocupa o lugar do objeto a (semblante) para permitir que o analisando produza seu próprio saber sobre o desejo.
Atuação no setting analítico: A técnica analítica consiste em operar o corte, que interrompe a significação imaginária para fazer emergir o real do significante. Ao não responder à demanda do paciente no nível do sentido comum, o analista força o sujeito a confrontar-se com seu próprio desejo e com a falta no Outro. O objetivo final de uma análise, mediada pelo significante, não é a cura pedagógica, mas a identificação do sujeito com seu sinthoma — ou seja, aprender a “saber fazer com isso”, com o resto irredutível que o constitui.
Em suma, o significante é o cinzel que esculpe o sujeito no mármore da carne. Através dele, a vida torna-se discurso, o instinto torna-se desejo e o vazio torna-se a causa que nos faz, incessantemente, falar e existir.
Referências Bibliográficas:
- LACAN, Jacques. Seminário 1: Os escritos técnicos de Freud (1953-1954). Rio de Janeiro: Jorge Zahar.
- LACAN, Jacques. Seminário 3: As psicoses (1955-1956). Rio de Janeiro: Jorge Zahar.
- LACAN, Jacques. Seminário 4: A relação de objeto (1956-1957). Rio de Janeiro: Zahar.
- LACAN, Jacques. Seminário 6: O desejo e sua interpretação (1958-1959). Rio de Janeiro: Zahar.
- LACAN, Jacques. Seminário 7: A ética da psicanálise (1959-1960). Rio de Janeiro: Jorge Zahar.
- LACAN, Jacques. Seminário 8: A transferência (1960-1961). Rio de Janeiro: Jorge Zahar.
- LACAN, Jacques. Seminário 9: A identificação (1961-1962). Centro de Estudos Freudianos do Recife.
- LACAN, Jacques. Seminário 10: A angústia (1962-1963). Rio de Janeiro: Zahar.
- LACAN, Jacques. Seminário 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1964). Rio de Janeiro: Jorge Zahar.
- LACAN, Jacques. Seminário 13: O objeto da psicanálise (1965-1966). Stylus Revista de Psicanálise.
- LACAN, Jacques. Seminário 16: De um Outro ao outro (1968-1969). Rio de Janeiro: Zahar.
- LACAN, Jacques. Seminário 17: O avesso da psicanálise (1969-1970). Rio de Janeiro: Jorge Zahar.
- LACAN, Jacques. Seminário 18: De um discurso que não fosse semblante (1971). Rio de Janeiro: Zahar.
- LACAN, Jacques. Seminário 19: …ou pior (1971-1972). Rio de Janeiro: Zahar.
- LACAN, Jacques. Seminário 20: Mais, ainda (1972-1973). Rio de Janeiro: Jorge Zahar.
- LACAN, Jacques. Seminário 21: Os não-tolos erram (1973-1974). Porto Alegre: Editora Fi.
- LACAN, Jacques. Seminário 23: O sinthoma (1975-1976). Rio de Janeiro: Zahar.
- LACAN, Jacques. Seminário 24: L’insu que sait de l’une bévue s’aile à muorre (1976-1977). Campinas/Recife.
- LACAN, Jacques. Seminário 25: O momento de concluir (1977-1978). Trad. Jairo Gerbase.
- LACAN, Jacques. Seminário 27: Dissolução (1980).
- LACAN, Jacques. Nomes-do-Pai. Rio de Janeiro: Zahar.
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