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O Papel do Analista no Mundo Contemporâneo

O Papel do Analista no Mundo Contemporâneo

Introdução

O exercício da psicanálise hoje não pode ser dissociado do contexto histórico e discursivo em que se insere. Jacques Lacan nos ensina que a psicanálise é um sintoma da civilização e que sua eficácia depende da capacidade do analista de sustentar um lugar que subverte as lógicas dominantes. Nesta aula, exploraremos como o analista deve se posicionar diante das novas formas de subjetividade e sofrimento.

1. O Contexto Contemporâneo e o Sujeito

Declínio das referências simbólicas tradicionais A contemporaneidade é marcada pelo que Lacan chamou de desvio ou “declínio” da função do pai. Onde antes havia o Nome-do-Pai como baliza da lei e do desejo, hoje observamos uma fragmentação dessas referências. Como afirma Lacan: “Esse pai parece se desfazer numa nuvem densa, cada vez mais longínqua”. Esse esvaziamento simbólico deixa o sujeito desorientado, sem um Outro consistente que garanta a verdade ou a ordem.

Predomínio do discurso capitalista e da lógica do desempenho O sujeito moderno é atravessado pelo “discurso do capitalista”, uma variante do discurso do mestre que opera através de um deslizamento onde o saber passa a ocupar o lugar do comando. Nesse sistema, o sujeito é levado a uma busca incessante por objetos que prometem a satisfação de um “mais-de-gozar”. Lacan define essa estrutura como uma rejeição da castração: “O que distingue o discurso do capitalista é a Verwerfung, a rejeição… da castração”. Sem a barreira da castração, o sujeito fica preso em um circuito de produtividade e consumo que o petrifica como “material humano”.

Novas formas de sofrimento: angústia, vazio e excesso de gozo Diferente das neuroses clássicas centradas no conflito moral, o sofrimento atual manifesta-se freqüentemente como um “vazio” ou uma “dor de existir”. A angústia, nesse contexto, surge quando a falta falta — ou seja, quando o sujeito é confrontado com uma proximidade excessiva de um gozo que não pode ser simbolizado. O excesso de objetos de consumo tenta saturar o lugar do desejo, transformando o sujeito em um “dejeto” do sistema.

2. O Lugar do Analista Hoje

Recusa da posição de mestre, educador ou especialista em adaptação O analista contemporâneo deve resistir à tentação de ocupar o lugar do mestre ou do pedagogo que visa à “normalização” do sujeito. Lacan critica duramente as técnicas que buscam o “reforço do eu” ou a adaptação à realidade, chamando-as de “impostura”. O analista não deve ser um guia para a “felicidade” entendida como conformismo social. Como citado: “O analista cure menos pelo que diz e faz do que por aquilo que é” — mas esse “ser” deve ser entendido como um lugar de falta, não de plenitude pedagógica.

Analista como semblante do objeto a A posição correta do analista é ocupar o lugar de semblante do objeto a, a causa do desejo do sujeito. Ele se oferece como o suporte para que o analisando projete sua fantasia e, através disso, possa isolar o objeto que causa sua divisão. Lacan explica: “O analista ocupa legitimamente a posição do semblante porque não há outra situação sustentável em relação ao gozo”. O analista “faz-se de morto” ou de “espelho vazio” para permitir que o desejo do Outro se manifeste como uma questão.

Sustentação do não-saber e da falta no campo do Outro O analista sustenta a função do “sujeito suposto saber” apenas para permitir o início da transferência, mas seu objetivo é desvelar que o Outro, na verdade, não sabe a verdade última sobre o ser do sujeito. O saber analítico é um “saber caduco”, um saber que se extrai dos tropeços do sujeito. A posição do analista deve ser de uma ignorantia docta (douta ignorância), que não guia o sujeito para um saber pronto, mas para as vias de seu próprio erro e desejo.

3. Ética da Psicanálise na Contemporaneidade

Clínica orientada pela ética do desejo A ética da psicanálise não é uma ética do “bem comum” ou da utilidade, mas a ética do desejo. O juízo ético da análise resume-se à pergunta: “Agiste em conformidade com o desejo que te habita?”. Para a psicanálise, a única coisa de que se pode ser culpado é de ter “cedido de seu desejo”.

A angústia e o gozo como bússolas clínicas A angústia é o afeto que “não engana”. Ela sinaliza a presença do real e o ponto em que o sujeito é afetado pelo desejo do Outro. Lacan propõe que “o desejo é um remédio para a angústia”. A clínica, portanto, utiliza a angústia como bússola para localizar onde o sujeito está “implicado no mais íntimo de si mesmo”.

Preservação da singularidade do sujeito Diferente da ciência, que busca o universal, a psicanálise foca no “particular”. Trata-se de preservar a dignidade do sujeito como “sujeito do inconsciente”, não como uma “pessoa” adaptada. A ética analítica exige que o sujeito assuma a significação singular de sua história e de seu “quinhão” de verdade.

4. Direção do Tratamento no Mundo Atual

Do ideal de cura à invenção de um saber-fazer com o sinthoma O fim da análise não é a obtenção de uma “personalidade harmoniosa”, que é apenas um limite imaginário. O objetivo é a travessia da fantasia e a identificação com o sinthoma. Isso significa levar o sujeito a um “saber fazer com isso” (savoir y faire), ou seja, ter a habilidade de manejar o buraco vazio do inconsciente sem ser tragado por ele.

Intervenções pontuais e atos analíticos A intervenção do analista não deve ser explicativa ou pedagógica, mas operar pelo “corte”. O corte na sessão ou no discurso é o que permite o surgimento do efeito de sentido e relança o desejo. Lacan afirma que o corte é “o modo mais eficaz da interpretação analítica”. Através do ato analítico, o analista cai de sua posição de ideal para tornar-se o suporte do “objeto a separador”.

O Real como norte da prática clínica A análise deve visar ao Real, definido como o impossível de simbolizar. O tratamento não busca preencher a falta, mas fazer o sujeito assumir sua castração como a marca de seu ser falante. O Real é o “norte” porque é ali que o gozo se manifesta de forma irredutível e onde o sujeito deve encontrar seu ponto de ancoragem.

5. Desafios no Setting Analítico

Demandas por respostas rápidas e soluções imediatas No mundo contemporâneo, regido pelo “discurso do capitalista”, há uma pressão constante para que tudo seja traduzido em utilidade e eficiência. O analisando frequentemente chega ao consultório com uma demanda de “reparação” ou “cura rápida”. No entanto, a psicanálise ensina que a pressa em obter resultados pode ser um obstáculo. Lacan observa que “a pressa de concluir [é] um elemento em si questionável”.

Explicação: Esta citação destaca que, na análise, o tempo não é cronológico, mas lógico. Tentar apressar o processo para satisfazer uma demanda social de produtividade ignora o tempo necessário para o sujeito “compreender” sua própria estrutura. O analista deve resistir a ser o “mestre” que fornece soluções prontas, sob o risco de transformar a análise em uma “autoescola” de comportamentos.

Risco de psicologização e medicalização do sofrimento A psicanálise enfrenta hoje a concorrência de terapias que visam à “reeducação emocional” e à “adaptação do indivíduo ao meio social”. O risco é que o psicanalista abandone sua posição subversiva para se tornar um “engenheiro da alma”. Lacan é enfático ao dizer que “procurar o real ao qual a psicanálise tem a ver no psicológico é o princípio de um desvelamento radical. Toda redução (…) da psicanálise em algum psicologismo (…) é a negação da psicanálise”.

Explicação: Lacan alerta que a psicologia muitas vezes foca no “eu” (ego) como uma função de síntese e adaptação. Se o analista tenta “reforçar o eu” do paciente, ele está apenas fortalecendo as resistências e as miragens narcísicas, em vez de permitir que o sujeito do inconsciente emerja através de suas falhas e lapsos.

Manutenção do enquadre analítico frente às pressões sociais O analista deve manter uma “neutralidade” que não é indiferença, mas uma posição de “morto” ou “espelho vazio”. Em um mundo que exige “presença” e “feedback” constante, manter o silêncio e a abstinência é um desafio ético. O analista deve evitar o “furor sanandi” (o desejo desenfreado de curar), pois a cura, na psicanálise, deve vir “por acréscimo”.

6. Importância para a Formação do Psicanalista

Formação contínua: análise pessoal, supervisão e estudo teórico A formação do analista repousa sobre o tripé clássico. A análise pessoal é o ponto central, pois é nela que o futuro analista deve enfrentar seu próprio inconsciente. Lacan afirma que “o desejo do analista não é um desejo puro. É um desejo de obter a diferença absoluta”.

Explicação: O analista precisa ter atravessado sua própria “fantasia fundamental” para não projetar seus próprios ideais ou “objetos bons e maus” no paciente. A supervisão (ou controle) serve para que o analista perceba onde sua própria subjetividade está criando “pontos cegos” no tratamento.

Preparação para sustentar a falta e o impossível O analista deve estar preparado para o fato de que a relação sexual “não existe”, no sentido de que não há uma harmonia natural entre os sexos que a linguagem possa cobrir totalmente. Ao término da análise, o sujeito deve ser confrontado com o seu “desamparo absoluto” (Hilflosigkeit).

Explicação: A formação deve levar o analista a aceitar que ele não possui o “Bem Supremo” para dar ao paciente. Ele deve ser capaz de sustentar o lugar da “falta-a-ser” para que o analisando possa, por fim, produzir sua própria verdade, sem se alienar no “eu do analista”.

Responsabilização pelo ato analítico O ato analítico é aquilo que instaura o analista. Não é apenas uma técnica, mas uma posição ética. Lacan diz que “o psicanalista se autoriza por si mesmo (…) mas isso não quer dizer que ele esteja sozinho para decidir”.

Explicação: A responsabilidade do analista é total porque ele opera no campo da fala, onde cada resposta (ou silêncio) pode reconhecer ou abolir o sujeito. Ele deve pagar “com sua pessoa” na transferência para permitir que a análise avance.

7. Importância para a Atuação no Setting Analítico

Possibilitar a emergência da verdade do sujeito A atuação do analista visa permitir que o sujeito saia da “fala vazia” (alienada nos ideais sociais) e atinja a “fala plena”. O inconsciente, diz Lacan, é “esse capítulo de minha história que é marcado por um branco ou ocupado por uma mentira: é o capítulo censurado. Mas a verdade pode ser resgatada”.

Explicação: O analista atua como o destinatário da mensagem inconsciente do sujeito, devolvendo-a sob uma forma invertida para que o sujeito possa se reconhecer nela.

Operar cortes que desloquem a repetição do gozo A técnica não consiste em “compreender” o paciente (o que seria uma ilusão imaginária), mas em pontuar e escandir o discurso. Lacan afirma que “o corte é, sem dúvida, o modo mais eficaz da interpretação analítica”.

Explicação: Ao suspender uma sessão ou fazer uma intervenção que quebre a lógica do sentido comum, o analista introduz uma descontinuidade que obriga o sujeito a confrontar o “resto” de seu discurso, ou seja, o objeto a que causa seu desejo, deslocando a repetição estéril dos sintomas.

Manter a psicanálise como prática ética e subversiva Em oposição ao conformismo, a psicanálise deve preservar a singularidade do desejo. Ela não visa normalizar o sujeito segundo os padrões da “American Way of Life”. Pelo contrário, a análise é o lugar onde o sujeito descobre que “a única coisa da qual se possa ser culpado (…) é de ter cedido de seu desejo”.

Conclusão

O estudo da posição do analista no mundo contemporâneo é fundamental porque o psicanalista é, ele próprio, um sintoma da civilização atual. Compreender que o analista não é educador, técnico da felicidade ou agente de adaptação, mas um semblante da causa do desejo, é o que protege o setting analítico das pressões normativas da sociedade do desempenho. Essa posição sustenta a especificidade da psicanálise frente às demandas de eficácia, produtividade e normalização, preservando seu caráter ético e subversivo.

Na formação do psicanalista, o aprofundamento na teoria do objeto a, na topologia do sujeito e na ética do Real é indispensável para que a prática não se degrade em sugestão ou em uma “pastoral analítica”. A análise didática deve conduzir o futuro analista ao confronto com seu próprio desamparo (Hilflosigkeit), ao esvaziamento dos ideais do eu e à renúncia à posição de mestre. Somente ao aceitar ocupar o lugar de resto ou dejeto é que o analista pode sustentar uma escuta que não capture o sujeito em identificações ou ideais normativos.

No setting analítico, essa formação rigorosa permite que o analista se mantenha como semblante do objeto a, orientado pela ética do Real e não pelas soluções fáceis da psicologia adaptativa. É essa posição que possibilita ao analisando atravessar sua fantasia, assumir a castração e inventar um saber-fazer singular com seu sintoma e com o impasse da relação sexual. Assim, a psicanálise preserva sua função clínica e política: abrir espaço para o advento de um sujeito responsável por seu desejo, em um mundo saturado de exigências de conformismo e produtividade.

Referências Bibliográficas

  • LACAN, Jacques. O Seminário, livro 1: os escritos técnicos de Freud. Rio de Janeiro: Zahar, 1986.
  • LACAN, Jacques. O Seminário, livro 7: a ética da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 1988.
  • LACAN, Jacques. O Seminário, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 1988.
  • LACAN, Jacques. O Seminário, livro 17: o avesso da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 1992.
  • LACAN, Jacques. O Seminário, livro 23: o sinthoma. Rio de Janeiro: Zahar, 2007.
  • LACAN, Jacques. Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.

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