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Introdução
Sejam bem-vindos a esta aula fundamental sobre a estrutura da subjetividade na psicanálise lacaniana. Para iniciarmos nossa jornada, é preciso situar o Real como uma das três ordens essenciais que compõem a experiência humana, ao lado do Simbólico e do Imaginário. Jacques Lacan, ao longo de seu ensino, utilizou o nó borromeano para ilustrar que essas três dimensões são estritamente equivalentes e interdependentes: se um anel se rompe, os outros se soltam, o que demonstra que o Real não pode ser compreendido isoladamente.
Um dos maiores desafios para o estudante de psicanálise é distinguir “realidade” de “Real”. A realidade, conforme articulada por Lacan, é uma construção resultante da montagem do Simbólico e do Imaginário; é o mundo que percebemos e no qual nos situamos através da linguagem e das fantasias. Já o Real é algo de uma ordem totalmente distinta. Enquanto a realidade é precária e depende de fetiches ou semblantes, o Real é definido como o que sempre volta ao mesmo lugar. Na clínica, o Real assume uma centralidade absoluta, pois é o ponto de tropeço e de impasse que motiva a busca pela análise. Como Lacan nos ensina em sua obra, “o real é o impossível”, não como um obstáculo simples, mas como o limite lógico de tudo o que pode ser dito ou formalizado.
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O Conceito de Real em Lacan
O conceito de Real em Lacan deve ser entendido, antes de tudo, como o que resiste absolutamente à simbolização. Na experiência analítica, percebemos que nem tudo pode ser traduzido em palavras; existe um núcleo de ser que padece do significante, mas que nunca é totalmente absorvido por ele.
- O Real como o impossível de simbolizar: Lacan define o Real como o “não cessa de não se escrever”. Isso significa que há uma falha intrínseca na linguagem que impede a escrita da relação sexual, tornando o Real o paradigma do impossível.
Citação: “O real, aquele de que se trata no que é chamado de meu pensamento, é sempre um pedaço, um caroço… seu estigma, o do real como tal, consiste em não se ligar a nada.”. Explicação: Nesta passagem do Seminário 23, Lacan esclarece que o Real é uma zona de opacidade que não se integra à rede de significados da história do sujeito, permanecendo como um “pedaço” isolado e sem sentido.
- Resto da simbolização e o Objeto a: A entrada do sujeito na linguagem gera um efeito de perda, uma renúncia ao gozo original. O que resta dessa operação de divisão subjetiva é o que Lacan chama de objeto pequeno a. Esse objeto não é algo que o sujeito possui, mas o resto que cai da relação com o Outro e que passa a funcionar como causa do desejo.
- Articulação com o Gozo: O Real é a substância do gozo. Diferente do prazer, que busca a homeostase e o equilíbrio, o gozo é um excesso que transborda os limites da vida e se aproxima da pulsão de morte. Lacan afirma que “não há gozo senão do corpo”, situando o gozo como um fenômeno real que habita o ser vivo, mas que é, ao mesmo tempo, interditado e regulado pelo Simbólico.
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O Real e o Sintoma
Na clínica lacaniana, o sintoma não é apenas um sinal de mau funcionamento orgânico, mas uma resposta ao Real. Ele é um nó de significações que o sujeito fabrica para lidar com o que não anda, com o que faz furo na existência.
- Repetição como retorno do Real: A repetição analítica, ou automaton, não é um retorno cíclico da natureza, mas a insistência de um significante que busca presentificar o real do encontro traumático, a tuché. O sujeito repete para tentar encontrar algo que nunca esteve lá na forma de saber, mas que insiste como um “não-sei-quê” que o atormenta.
- Sintoma para além do sentido: Com o avanço do ensino de Lacan, o sintoma é repensado como “sinthoma”. O sinthoma é o que permite ao simbólico, ao imaginário e ao real continuarem juntos, mesmo quando o nó borromeano falha.
Citação: “O sintoma é em si mesmo, e de ponta a ponta, significação, ou seja, verdade… Ele se distingue do indício natural pelo seguinte – ele já está estruturado em termos de significado e significante.”. Explicação: No Seminário 2, Lacan explica que, embora o sintoma carregue uma verdade, seu núcleo real é o gozo, algo que não clama por interpretação, mas que “se basta”.
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Limites Clínicos do Real
O manejo do Real exige do psicanalista uma ética rigorosa. Existe um risco clínico em se buscar um excesso de sentido para tudo o que o paciente traz, o que Lacan chama de “alimentar o sintoma com sentido”.
- O Ininterpretável: O analista deve reconhecer que há um limite para a interpretação. Esse limite é o “umbigo do sonho” ou o ponto cego da fantasia, onde o significante falta. A presença do analista no setting, em última instância, é ininterpretável; ela é o real da transferência.
- Limites da Palavra: A palavra analítica não visa apenas o entendimento, mas o “bem dizer” que toca o real.
Citação: “A verdade já implica o discurso. O que não quer dizer que ela possa ser dita. Eu me mato dizendo que ela não pode se dizer, ou só pode ser meio-dita.”. Explicação: Lacan enfatiza aqui que a verdade sobre o real é “não-toda”, pois a linguagem não consegue cobrir a totalidade do que existe, deixando sempre uma hiância que é o lugar do sujeito do inconsciente.
- Manejo Ético: O analista não deve prometer a felicidade ou a cura como uma adaptação à realidade social. Sua função é confrontar o sujeito com o seu desejo e com o real do seu gozo, sem recuar diante do impossível.
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Potencialidades Clínicas do Real
Embora o Real seja comumente definido como o impossível, ele não deve ser visto como um beco sem saída, mas como o motor da invenção subjetiva. O inconsciente não descobre algo que já estava lá; ele inventa um saber para colmatar o furo do Real deixado pela não-relação sexual.
- Saber-fazer com o sintoma: Na clínica, o objetivo não é apenas a decifração do sentido, mas chegar ao “saber-fazer” com o sinthoma. O sinthoma é o que permite ao simbólico, imaginário e real manterem-se juntos, e o “saber-fazer” implica uma habilidade artística do sujeito em lidar com o que não tem solução.
- Deslocamento do Gozo: A análise visa deslocar o sujeito de um gozo mortífero para o desejo. Enquanto o gozo se refere ao que não serve para nada e se repete como entropia, o desejo é a metonímia do ser no sujeito.
Citação: “A angústia é um termo intermediário entre o gozo e o desejo, uma vez que é depois de superada a angústia que o desejo se constitui.”. Explicação: No Seminário 10, Lacan situa a angústia como o sinal que alerta o sujeito para a presença do Real (o desejo do Outro), permitindo que ele se constitua como desejante ao invés de ser apenas um objeto do gozo do Outro.
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Importância na Formação do Psicanalista
A formação do analista exige que ele sustente uma posição radical diante do Real. Ele deve ocupar o lugar de sujeito suposto saber, sabendo, contudo, que esse saber absoluto não existe.
- Sustentação do Não-Saber: O analista opera a partir de uma ignorantia docta (ignorância douta). Ele não deve guiar o paciente rumo a um saber pré-estabelecido, mas sim para as vias de acesso ao próprio saber inconsciente do sujeito.
- Abandono do Ideal de Cura Total: Na perspectiva freudiana e lacaniana, a “cura” não é uma adaptação à realidade ou uma harmonização psicológica. Lacan afirma que a cura vem “por acréscimo” e que o verdadeiro término de uma análise didática deve confrontar o sujeito com o seu desamparo absoluto (Hilflosigkeit), onde ele não espera ajuda de ninguém.
- Rigor Ético: A ética da psicanálise consiste em não ceder de seu desejo e em julgar a ação em relação ao desejo que a habita. O psicanalista é responsável pelo seu lugar como causa do desejo, o que exige uma ascese subjetiva constante.
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Impactos no Setting Analítico
O setting não é apenas um cenário burocrático, mas um dispositivo que permite o encontro com o Real através da fala.
- Manejo do Silêncio e do Corte: O silêncio do analista não é ausência de resposta, mas a sustentação de um vazio onde o desejo pode se situar. O “corte” da sessão é um dos modos mais eficazes de interpretação, pois interrompe a inércia do discurso vazio e precipita o momento de concluir do sujeito.
- Lugar do Analista diante do Impossível: O analista deve oferecer-se como o objeto a da fantasia do analisante. Ele ocupa o lugar do “morto” para não ser capturado pela relação imaginária e permitir que o sujeito assuma sua castração.
Citação: “O ato analítico… é a terceira das profissões impossíveis.”. Explicação: No Seminário 17, Lacan retoma a ideia freudiana de que analisar é impossível porque lida com o Real, ou seja, com um ponto onde o saber sempre falha e a verdade só pode ser meio-dita.
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Síntese Final
O Real marca o limite absoluto da clínica psicanalítica: não-tudo se interpreta. A presença do analista, em última instância, é ininterpretável, funcionando como o resto que causa o trabalho do analisante.
A clínica lacaniana visa uma nova relação com o Real, transformando a impotência do sintoma na impossibilidade lógica que define a estrutura do sujeito. A formação do psicanalista, portanto, articula:
- Teoria: O reconhecimento do inconsciente estruturado como linguagem.
- Ética: A sustentação do desejo diante do horror do gozo.
- Prática: O uso do corte e do silêncio para desvelar a falta-a-ser constitutiva do falasser.
Conclusão
A compreensão do Real constitui o alicerce da prática psicanalítica enquanto práxis do impossível, pois orienta o analista a não se perder nas miragens imaginárias de cura, na ilusão de mestria ou em intelectualizações estéreis. Ao reconhecer o Real como aquilo que “não cessa de não se escrever”, o psicanalista sustenta, no setting, a posição de objeto a e o vazio do Outro, abandonando o lugar de educador ou guia moral. É essa sustentação ética que permite ao sujeito atravessar sua fantasia, deslocar sua relação com o gozo e passar do sofrimento do sintoma ao saber-fazer com seu sinthoma, assumindo a falta radical que o constitui como ser falante e encontrando uma maneira singular de habitar sua linguagem e seu corpo.
Referências Bibliográficas
- LACAN, J. O Seminário, livro 1: os escritos técnicos de Freud (1953-1954). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1986.
- LACAN, J. O Seminário, livro 3: as psicoses (1955-1956). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1988.
- LACAN, J. O Seminário, livro 10: a angústia (1962-1963). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2005.
- LACAN, J. O Seminário, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1964). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1988.
- LACAN, J. O Seminário, livro 17: o avesso da psicanálise (1969-1970). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1992.
- LACAN, J. O Seminário, livro 19: …ou pior (1971-1972). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2012.
- LACAN, J. O Seminário, livro 20: mais, ainda (1972-1973). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1985.
- LACAN, J. O Seminário, livro 23: o sinthoma (1975-1976). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2007.
- LACAN, J. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998.
- LACAN, J. Nomes-do-Pai. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2005.
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