Sintomas Contemporâneos – Um Diálogo entre Freud e Lacan

Sintomas Contemporâneos – Um Diálogo entre Freud e Lacan

  1. Introdução: O Sofrimento na Atualidade

A clínica psicanalítica não é uma prática isolada das transformações do laço social. O sofrimento humano, embora possua um núcleo estrutural invariável, manifesta-se de formas distintas conforme a época. Hoje, vivemos o que Jacques Lacan descreveu como uma guinada na incidência do saber na história. A psicanálise, portanto, não é apenas um método de tratamento, mas um fenômeno que surge como resposta ética ao mal-estar da civilização.

Como referências estruturais, Freud e Lacan permanecem atuais porque não visam a normalização do sujeito segundo padrões sociais de felicidade, mas sim a verdade do desejo. Lacan afirma:

“A psicanálise só aparece como sintoma na medida em que já está presente uma guinada do saber na história – não digo na história do saber – ou da incidência do saber na história, que concentrou, por assim dizer, a função definida pelo objeto a, a fim de no-la oferecer, de colocá-la ao nosso alcance”.

Nesta citação, extraída de De um Outro ao outro, o autor explica que a psicanálise é um sintoma da modernidade porque ela isola o objeto a — o resto de gozo — em uma época onde o saber científico e o capitalismo tentam suturar todas as faltas do sujeito.

  1. Características dos Sintomas Contemporâneos: Excesso e Ato

Os sintomas que chegam aos consultórios hoje frequentemente diferem das clássicas neuroses de transferência da época de Freud. Há um predomínio do excesso, da urgência e da dificuldade de simbolização. O sujeito contemporâneo é bombardeado por objetos de consumo que prometem um “mais-de-gozar”, mas que resultam em uma profunda desorientação subjetiva.

Uma marca central é a fragilização do lugar do Outro (A). Sem a bússola do Nome-do-Pai para mediar o desejo, o sujeito depara-se com um vazio que gera angústia. Sobre a função do Outro, os textos indicam:

“O Outro é portanto o lugar onde se constitui o eu que fala com aquele que ouve”.

Esta passagem de A Coisa Freudiana sublinha que o Outro é o fiador da linguagem. Quando esse lugar torna-se inconsistente, o sintoma deixa de ser uma “mensagem cifrada” para se tornar um “acontecimento de corpo” ou um ato impulsivo. Observamos, assim, o declínio da fala plena em favor de acting outs e passagens ao ato, onde o sujeito não busca ser ouvido, mas simplesmente “deixa-se cair” da cena social.

  1. Contribuições de Freud: A Invenção do Sintoma

Sigmund Freud revolucionou a medicina ao demonstrar que os sintomas histéricos e obsessivos não eram disfunções orgânicas, mas “formações do inconsciente” providas de sentido. O sintoma freudiano é um substituto de uma satisfação instintual que foi recalcada, emergindo como um compromisso entre o desejo e a defesa.

Para Freud, a clínica gira em torno da repetição e da resistência. O paciente repete em ato o que não consegue recordar, processo que ele denominou Wiederholungswang (compulsão à repetição). Como apontado nos textos:

“Aprendemos que a essência do processo de repressão não está em pôr fim, em destruir a ideia que representa um instinto, mas em evitar que se torne consciente”.

Esta citação de O Inconsciente explica que o recalcado permanece ativo. A transferência surge como o eixo do tratamento, sendo o playground onde o sujeito revive seus conflitos infantis com a figura do analista. Freud ensina que a cura não é a simples eliminação do mal, mas a reintegração da história do sujeito até seus limites sensíveis.

  1. Contribuições de Lacan: Linguagem e Gozo

Lacan avança a teoria freudiana ao postular que o inconsciente é estruturado como uma linguagem. No entanto, sua maior contribuição para entender o sintoma contemporâneo é a distinção entre sentido e gozo. Enquanto o sentido é o que pode ser interpretado, o gozo é o núcleo de satisfação real que o sintoma proporciona ao sujeito, um “mais-de-gozar” que resiste à palavra.

Na clínica das psicoses e dos casos-limite, Lacan introduz o conceito de foraclusão (Verwerfung) do Nome-do-Pai. Quando esse significante primordial falta, o que foi rejeitado do simbólico reaparece no real sob a forma de alucinações ou sintomas corporais invasivos. Sobre o gozo, Lacan afirma:

“O sintoma, por natureza, é gozo, não se esqueçam disso, gozo encoberto, sem dúvida (…) não precisa de vocês como o acting out, ele se basta”.

Essa passagem de A Angústia esclarece que o analista deve lidar com o fato de que o sintoma “funciona sozinho”, protegendo o sujeito de um real insuportável. No manejo clínico, o analista deve diferenciar o acting out, que é um ensaio, um apelo ao Outro para ser lido, da passagem ao ato, que é uma saída radical do campo simbólico em direção ao vazio.

  1. Diálogo Freud–Lacan na Clínica Atual: Do Sentido ao Gozo

Na clínica contemporânea, o desafio do psicanalista é transitar entre a herança freudiana do sintoma como portador de um sentido e a constatação lacaniana de que o sintoma é, fundamentalmente, um modo de gozo. Freud estabeleceu que o sintoma é um substituto de uma satisfação recalcada, uma “formação de compromisso” que protege o ego, mas gera sofrimento. No entanto, a clínica atual nos mostra sujeitos que não buscam apenas decifrar o que seu sintoma “quer dizer”, mas que estão capturados em um impasse de satisfação que Lacan define como um núcleo de “não-senso”.

A escuta analítica deve ser atualizada sem perder o rigor teórico. Interpretar não é meramente oferecer uma significação ao paciente, pois “não é porque eu disse que o efeito da interpretação é isolar no sujeito um coração de non-sense que a interpretação ela mesma é um não-senso”. O analista deve sustentar o sujeito do inconsciente contra a tendência moderna de “psicologização” e normalização do sofrimento. Normalizar o sujeito, tentando adequá-lo a uma “realidade” suposta pelo analista, é cair no obscurantismo de transformar a psicanálise em uma “ortopedia” social. Como aponta Lacan, o psicanalista deve ser o “suporte do sujeito suposto saber”, mas saber que esse saber não é uma totalidade, mas algo marcado por uma falta fundamental.

  1. Importância na Formação do Psicanalista: A Ética do Desejo

A formação do psicanalista não se encerra em diplomas; ela é contínua e exige clareza teórica diante das novas demandas. O ponto central dessa formação é a própria análise do analista. Freud foi enfático: “qualquer um que falhe em produzir resultados numa autoanálise deve desistir imediatamente de qualquer ideia de tornar-se capaz de tratar pacientes pela análise”. É na própria análise que o profissional se depara com a “cicatriz da castração” e com a opacidade de seu próprio desejo.

A ética que rege essa prática é a ética do desejo do analista. Esse desejo não é uma vontade de curar (o furor sanandi que Freud criticava), mas um desejo de “obter a diferença absoluta”, permitindo que o sujeito se confronte com seu significante primordial. O analista deve evitar a “impostura” de se colocar como um mestre ou um modelo de normalidade para o analisando. Sua formação o prepara para ocupar o lugar de “objeto a” — a causa do desejo — e não para ser um “espelho vivo” que apenas reflete o ego do paciente.

  1. Impactos na Atuação no Setting Analítico: O Ato e o Tempo

O setting analítico funciona como um dispositivo clínico onde o analista trata o real pelo simbólico. O manejo da transferência em novos quadros clínicos exige que o analista não se deixe capturar pela “intersubjetividade” imaginária (a relação de ego para ego), mas que mantenha a distância necessária para que a transferência apareça como “atualização da realidade do inconsciente”.

Frente à urgência contemporânea, o analista deve sustentar o tempo analítico. Lacan subverte o tempo cronológico através da “escansão” ou do corte, que retira o sujeito de sua “fala vazia” e o confronta com a finitude e a falta. O analista é, nesse sentido, um “Mestre do tempo”, não para controlar o paciente, mas para marcar os momentos de conclusão que precipitam a verdade. A interpretação, portanto, não é um ensinamento, mas um ato clínico que “não é aberto a todos os sentidos”, visando isolar o significante traumático e irredutível ao qual o sujeito está assujeitado.

  1. Síntese Final: Estrutura e Posição Ética

Em síntese, embora os sintomas contemporâneos assumam novas roupagens (compulsões, depressões, atuações no corpo), a estrutura do sujeito em sua relação com o significante permanece inalterada. Freud e Lacan oferecem ferramentas que permitem ao analista não retroceder diante do real do gozo. O setting não é um refúgio, mas o lugar onde a posição ética do analista se expressa por meio do silêncio e do “não-agir” positivo, que visa a autonomia do desejo do sujeito.

A formação do analista articula teoria, clínica e ética como três pilares indissociáveis. Ela exige que o profissional aceite sua posição de “ser de abjeção” no final da cura — o resto da operação analítica — para que o sujeito possa, enfim, se reconhecer em sua própria falta e inventar um novo saber-fazer com seu sintoma.

Conclusão: A Formação e o Setting Analítico

A articulação entre Freud e Lacan na leitura dos sintomas contemporâneos é fundamental para a formação do psicanalista e para a sustentação ética do setting analítico, pois preserva a psicanálise de se reduzir a uma prática adaptativa ou pedagógica em um contexto que exige respostas rápidas e conformismo social. Ao ocupar a posição de suporte do objeto a — e não de mestre ou educador — o analista sustenta um espaço em que o sintoma pode ser acolhido como construção singular e histórica, permitindo ao sujeito confrontar-se com o real de seu gozo, com a inconsistência de sua demanda e com o vazio estrutural que o constitui. É nessa direção que a clínica possibilita a passagem da repetição mortífera para uma invenção subjetiva, mantendo viva a “Coisa freudiana”: ali onde o saber falha, a verdade do desejo insiste em se fazer ouvir como ato, convocando o sujeito à responsabilidade por sua existência diante do Outro.

Referências Bibliográficas

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  • FREUD, Sigmund. (1976). Além do princípio do prazer. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, Vol. XVIII. Rio de Janeiro: Imago.
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  • LACAN, Jacques. (1986). O Seminário, livro 1: os escritos técnicos de Freud (1953-1954). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed..
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  • LACAN, Jacques. (1998). Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.

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